Francisco de Assis: um homem Santo! – Frei Marcelo Veronez, OFMConv

 

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Frei Marcelo Veronez, OFMConv

Não é fácil falar de São Francisco como um personagem, “nem tanto santo, nem tanto pecador”. Poderíamos dizer que, por vezes, Francisco parece-nos tão distante, tão longe da realidade do cotidiano em que vivemos. Mencionar São Francisco poeticamente é lirismo, até porque, nós ocidentais somos dotados de um romantismo em relação a ele, por causa dos cachorrinhos, dos passarinhos e de seu amor por todas as criaturas. Essa visão romântica retratada nos quadros pela nossa cultura ibérica não nos revela um autêntico São Francisco de Assis. Vale a pena falar um pouco sobre esta visão, porque São Francisco é um homem muito complexo. Não foi um palhaço, nem um boneco, nem alguém que não tivesse carne e osso, que não tivesse sentimentos, que não viveu os dramas da vida que nós “normais” vivemos, que não viveu também a felicidade e a tristeza, a dor e a plenitude da vida. Este Francisco pintado pelos artistas, talhado nas esculturas, descrito nos livros de romance, é uma leitura que nos encanta. Não nos deixa pasmados a sua vivência? Porém, a visão romântica e poética de São Francisco não nos ensina a sua realidade mais concreta, mas nos vicia catequeticamente. Ela não nos traz a espiritualidade autêntica do homem santo e real que foi Francisco de Assis. A verdadeira espiritualidade de São Francisco é encarnada, é muito viva e é muito completa.

Poderíamos também falar de São Francisco como “reconhecidamente” o homem deste último milênio. Vocês sabem que a revista Times elegeu São Francisco como a maior personalidade do último milênio? Foi ele um dos homens que influenciaram “efetivamente” a política do seu tempo, a cultura, a sociedade, a religião, gerando um Estado em transformação. Quando no pós feudalismo nascia a abertura das cidades e a sua formação, o desenvolvimento do mercado, a troca e a venda, o nascimento das universidades, São Francisco estava lá na praça, pregando o Evangelho, questionando os modelos da nascente burguesia, julgando-os à luz da dignidade cristã, trazendo às consciências a penitência que coloca o ser humano no seu original. Falando de assistência social, de política, do sagrado, de paz, São Francisco grita e denuncia, pelo seu exemplo, a entediante riqueza, a falta de distribuição de renda, tão presente na realidade em que vivemos hoje. São Francisco foi um homem encarnado em seu tempo, não isolado, mas um homem que foi capaz de encontrar-se com o outro, de olhar o próximo, de perceber o caminho que lhe conduzia a Deus. São Francisco que parece sempre debruçado sobre a rocha, contemplando a cruz, profundamente místico, não está muito distante de nós. Mas é importante desmistificar isso, para “encarnar” a realidade e aprender de forma catequética o modelo que foi e é Francisco. Diria que deveríamos gerar e transformar a ilusão de um “santinho” em realidade de um verdadeiro “Santo”. Falo isso, porque esperamos, quando celebramos uma memória, uma festa, ouvir coisas bonitas acerca de um determinado santo ou beato, mas os santos, beatos e ainda outros que fazemos memória não estão aí para serem adorados, a exemplo do que faziam os gregos e romanos diante de seus deuses, mas a Igreja os colocou e os canonizou, não como grandes personalidades humanas que foram divinizadas, não só para serem pintados e aparecerem nas esculturas e ícones das igrejas, mas, porque são uma história concreta, que transformou vidas, que transformou a sociedade, o mundo, com o desapego e com suas virtudes.

Francisco é um modelo de ser humano que despertou o mundo para encontrar e experimentar o Cristo “humano, apesar do divino”, não o Cristo “Divino, apesar de humano”. Seria como encontrar em Cristo “o Jesus”, muito próximo de nós e igual a nós, irmão, pobre, sofredor, amigo e amado. É muito interessante e inovadora essa visão simplória de Francisco. Para ele, isso era fundamental e de profunda sabedoria. Uma sabedoria que lhe foi dada na experiência do vazio “bom”, da pobreza e da simplicidade.

São Francisco não buscou a sabedoria nos livros, nem nas pós graduações, nem nos mestrados, nem nos doutorados, dizem seus biógrafos “era um ignorante” e “sem letras”. São Francisco foi direto à raiz essencial da existência humana, na raiz do que nos faz entender-se “criatura” como Deus nos fez e não como donos da criação. Encontrou ele, a verdadeira sabedoria em Deus, pois Deus é a fonte e a força motivadora da existência humana, é o criador. D’Ele provém o conhecimento verdadeiro, no mais estreito da palavra. Para esta sabedoria não se faz necessário o conhecimento palpável, mas àquela que vai além dos nossos sentidos, além do que pode ser contemplado ou verificável, a isso nós chamamos fé.

Francisco, após sua conversão, não quis acessórios para sua experiência de fé, não quis encher-se de supérfluos, pois uma só coisa lhe bastava, a cruz de sua existência. Neste estado entendeu o que é amar profundamente, o que é ser gratuito, o que é doar. No estado extremo de um limite ímpar ele viu em Jesus um aliado, no sofrimento, na dor, nas imperfeições, na fragilidade da Cruz e na morte corporal. A morte, para Francisco de Assis é a verdadeira desapropriação que imita o estado perfeito da criatura.

O mistério da cruz, do ponto de vista espiritual, não é dado a entender para quem quer fazer ciência, não é para quem quer fazer psicologia, não é para quem quer fazer teologia, indagando a si mesmo: como estava o corpo de Jesus naquele momento? Que tipo de sangue é o de Jesus? O mistério da cruz é um mistério profundamente espiritual, uma construção teológica da nossa própria existência, que é a minha vida, pois não consigo descrevê-la por palavras verbalmente. Viver é dar sentido a minha existência, isto é, a minha cruz com tudo o que ele me propõe.

Francisco tomou esta cruz e deu sentido a ela. Perguntaríamos ainda: qual é a razão de fazer memória deste homem? – Ele não quis nada, disse não à propriedade, não ao dinheiro, não às riquezas, não ao poder, não à autoridade. A razão de cultuá-lo é antes de tudo sugar dele um modelo espetacular de singularidade existencial. Uma doutrina que nos revela o Evangelho no mais original, sem véus e bem transparente, porque Francisco, viu em Jesus um “igual”, daí que na doutrina franciscana somos todos iguais. Ninguém é maior do que ninguém. O Filho de Deus, para Francisco de Assis, é pobre, humilde, sem nada de próprio e casto. São Francisco de Assis recria uma fraternidade baseada na palavra de Deus, na descrição mais originária dos Evangelhos sobre o Messias.

Caros, não é à toa que desde o início do cristianismo, há dois mil anos, em lugares onde ocorriam os martírios foram construídas as primeiras igrejas. Um cristão ao morrer em nome de Cristo era sepultado em catacumbas subterrâneas. Nelas nasceu a igreja física e a partir delas a comunidade cristã dedicou essas igrejas aos mártires, aos santos. Percebe-se, pois, que não é em vão que uma igreja seja dedicada a São Francisco, que uma igreja seja dedicada a um santo qualquer, não é um fetiche religioso. Não é uma continuidade dos templos romanos dedicados a deuses de pedra, mas é uma dedicação que transborda em “espiritualidade” de vida concreta. Na prática, ter um padroeiro como São Francisco de Assis é ter uma espiritualidade que me una a Deus e me dê o limiar existencial e escatológico sobre a vida. É aprender com ele, é recolher da sua experiência de vida os elementos que me dão a razão de existir. Digo isto, porque tem gente que dá razão a sua existência em coisas temporais e efêmeras, dizendo: “eu sou feliz, porque eu tenho um bom emprego e um bom salário”. Ledo engando, pois a nossa existência não tem sentido no estar e adquirir coisas, senão na essência da vida criada e gerada em Deus.

Fazer memória de São Francisco é um convite a entender a visão otimista da vida, do cosmos, do mundo. Entender que este santo viu nas misérias humanas, nas coisas terríveis da nossa coletividade e até no pecado, a grande possibilidade de entrar em harmonia com o universo, com a criação. São Francisco não se coloca como aquele que quis destruir e dominar as criaturas, como aquele que corta as árvores, que mata os animais, que polui as cidades. Não se achava ele um ser diferente em dignidade criacional melhor que as plantas e os animais, maior que a terra ou os astros. Para Francisco, os seres humanos foram presenteados por uma criação especial, porém não por uma matéria melhor ou diferente daquela de todo o Criado. A espiritualidade que emerge dessa fabulosa e fantástica capacidade integradora de São Francisco é a espiritualidade da inclusão, da harmonia, da gratuidade, da fraternidade, do encontro com o próximo. Daí em diante, ele abraçou todo mundo, lançou-se universalmente de uma forma integradora que culminou nos estigmas: sinal de seu mais profundo desejo de ser como Cristo o verdadeiro homem, já que Jesus foi o verdadeiro Filho de Homem.

Esse “Universalismo Franciscano” não é de se perder de vista, uma vez que nos lança sempre mais a um otimismo significativo, cheio de desejo, transformação, construção de um mundo novo e buscá-lo é nosso dever. Na prática da vida precisamos conquistar espaços para nos tornar significativos. Lembram daquela história que eu sempre conto nas homilias? Abrindo a janela do convento em que morei na Itália, na cidade de Roma, em um museu à frente, tem escrito – “Itália: terra de santos, heróis e navegadores” – está frase fica na fachada do museu e nos faz recordar a essência histórica de uma nação que transformou a realidade, que questionou a os sistemas, que deu exemplo de cultura, de dignidade à sociedade e nela inclusa os homens e as mulheres de muitos tempos. Francisco de Assis nasceu em uma terra de cultura “secular”, para não falar em “milenar”. Uma terra que deu testemunho da ação e construção do cristianismo ocidental, um povo que não ficou só na palavra. A exemplo dessa São Francisco se fez pobre com os pobres, para que os seus percebessem os excluídos, os pobres fora dos muros das cidades. Francisco não fez e nem realizou somente uma “assistência social”, acolhendo, alimentando, cuidando ds leprosos, nem dando seu manto para um pobre, como se assistisse à miséria humana, mas São Francisco quis ser pobre com os pobres, em par de igualdade. Nós éramos quando entendemos a espiritualidade franciscana a partir do assistencialismo descomprometido com o ser humano, como fazem os sistemas de governo ao construir creches, dar cestas básicas, bolsa família, etc. Isto é assistência social ou simplesmente um assistencialismo. São Francisco não deu assistência material, contudo trouxe o sentido para vida dos pobres, percebem a diferença? – é para isso, “caros amigos”, que nós somos convocados e questionados. Enfim, percebemos que a espiritualidade de São Francisco está muito longe de nós.

Vemos, então, claramente que São Francisco na sua dimensão encarnada e real, nos leva ao foco da existência humana. Desta forma, nos encontramos como que diante de nós mesmos, vazios e sem respostas. São Francisco nos arrasta junto com ele, porque não esteve no mundo como passivo, mas na ação a serviço do ser humano. A exemplo dele nós podemos transformar a sociedade, transformar a vida da minha família, da escola, do trabalho. Os valores que posso colher da vida dele, não são somente imagens, não é um romance, é real.

É imprescindível que com o otimismo universal de São Francisco, jamais percamos de vista sua história e exemplo. Que possamos levá-lo para a nossa vida real, mesmo que nos sintamos incomodados porque não sabemos como realizar o que ele nos ensinou. Porém, animados pela força que o impulsionou possamos dizer que é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna. T

Fonte: Reflexões Franciscanas

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Sobre Editor

João Martins (Prof. Omar Martins) é editor deste blog e possui formação em Filosofia, História e Pedagogia de Anos Iniciais. Professor há mais de 20 anos, cursou Filosofia (Unilasalle), História (UFRGS) e mestrados em Filosofia (PUC-RS/Universitat Heidelberg) e Ciências da Educação (FPCEUP). Atualmente, é investigador em Filosofia da Educação (Ph.D. Fellow - U.Porto, Portugal). Atua no magistério para concursos públicos há 15 anos, ministrando cursos nas áreas de Educação, Atualidades, Direitos Humanos e Legislação Aplicada à Educação em cursos presenciais e EAD nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro.

Publicado em 29/06/2015, em Espiritualidade Franciscana, FAMÍLIA FRANCISCANA, Igreja Católica Romana, OFMConv - Frades Conventuais, Ordem de São Francisco, OSF e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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