“Sobre esta pedra edificarei minha Igreja” – Frei Milton, OSF

jesus-pedro

Amadas irmãs e amados irmãos, que todas e todos vocês estejam em paz!

O texto evangélico desta semana talvez seja um dos pilares do cristianismo, o coração de nossa fé. Não porque, como dizem alguns, foi quando Jesus sustentou a sua Igreja sobre Simão, o Pedro, assertiva questionável, como veremos mais adiante, mas é uma passagem basilar tanto pela forma que o Senhor indica como devemos perceber Cristo como centro de nossa vida, bem como pela visão da composição de sua Igreja por uma humanidade heterogênea, santa e pecadora.

Vejamos primeiramente a passagem em tela:

Chegando Jesus ao território de Cesaréia de Filipe, perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Disseram: “Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”. (Mt 16:13-19)

A primeira resposta dos discípulos, ao serem questionados por Jesus quem o povo dizia ser ele, aponta para João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas. Dos nominados, dois dos maiores profetas destacadamente presentes no Primeiro Testamento – Elias e Jeremias –, e o precursor de Jesus, João Batista, o profeta mais próximo dele, o “maior dentre os nascidos da mulher”, como nos disse o próprio Cristo. Pessoas que, apesar das limitações humanas, traziam imensas virtudes, inabalável fé, exemplos de amor a Deus e ao próximo. Sob o ponto de vista humano, Jesus seria, assim como os citados, um grande profeta, de bondade ímpar, de amor exemplar e privando de um relacionamento íntimo com Deus. Dentro das limitações racionais humanas, Jesus era visto como uma pessoas excepcional, exemplo de vida e a quem deveria ser ouvido e seguido, um grande profeta que trazia à humanidade palavras divinas de salvação.

Porém, Simão nos apresenta, com sua resposta, não a fala decorrente do olhar e da razão humanas, mas sim a verdade que em nós se implanta pela revelação divina. Como seres limitados, podemos identificar em outro homem apenas a sua humanidade, por melhor que seja, mas a divindade existente em Jesus somente pode ser identificada pelo poder do Espírito de Deus que O revela a cada um de nós, assim como o fez a Simão: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus”.

Iniciamos, então, nossa reflexão trazendo à tona de nossa razão a única forma de reconhecermos a presença viva de Deus: pela revelação divina, pelo desejo do próprio Deus de se revelar presente em nós. Não por nossos méritos, até porque não os temos, Deus se faz presente em nossa vida. Méritos, temos sim, quando acolhemos tal revelação, quando permitimos que o Deus vivo e infinitamente amoroso se revela para nós e disponibiliza-se para conduzir nossa vida, caso o aceitemos para fazê-lo. O seu poder infinito ao se fazer presente associa-se ao livre arbítrio que temos de aceitar tal revelação. Assim, bem-aventurados aqueles que, apesar da limitação da carne e do sangue, é capaz de permitir a presença viva do Senhor em sua vida.

Entretanto, a revelação divina não se destina, apenas, ao conhecimento da existência de Deus. Para tanto, bastaria vermos as maravilhas do universo. A verdadeira revelação, a real acolhida de Deus presente em nossa vida reverte-se em mudança, em ação, em construção. Quando Simão reconheceu em Jesus o Deus vivo, não se limitou, apenas, a um conhecimento racional, tal reconhecimento deveria, segundo o próprio Jesus, expandir-se para ação.

Não é sem motivo que tal passagem tenha ocorrido em terras fundadas por um imperador romano em reverência ao imperador Cesar, para eles, um terreno pagão. Em terreno humano, em terreno limitado, com a revelação divina, com a presença viva de Deus, tudo se transforma, tudo se modifica, tudo se santifica.

E foi sobre esta pedra que o próprio Cristo edificou sua Igreja, sobre a pedra da revelação, da fé, da ação do Espírito de Deus na humanidade, independente das limitações, das diferenças, das características individuais. Independente de vaidades e defesas institucionais, a pedra basilar da Igreja de Cristo é a própria presença viva de Deus em nós e não sobre um homem, mesmo sendo ele Simão, chamado Pedro. Percebam que Jesus não disse que sobre Pedro edificaria sua Igreja, mas sim sobre “esta pedra” – Deus todo-poderoso que em nós habita, por meio de sua revelação.

Como somos seres imperfeitos, limitados e plurais, sua Igreja assim também o é, porém santa em sua essência, em sua base, em seus princípios, em seu poder. Não se limita aos que dizem “Jesus, Jesus” numa repetição constante de palavras desvinculadas de ação. A edificação da Igreja de Cristo está ligada a ação daqueles que o aceitam em sua vida, na ligação dos seres ao céu, ou seja, na concretização da revelação divina em nosso cotidiano. Tal postura está na aceitação das diferenças, mas na não concordância com as desigualdades; no acolhimento das dificuldades humanas, mas no repúdio ao desamor e à ganância; na compreensão das limitações dos seres, mas na não aceitação da exploração dos irmãos. Enfim, a Igreja de Cristo edifica-se no Deus vivo e atuante, mesmo que seja por intermédio de cada um de nós, limitados e pecadores.

A pedra da Igreja de Cristo está viva em cada um de nós. Cada pessoa que se propõe a participar dessa edificação transforma-se em pedra de sustentação da grande assembleia cristã, comunidade que vive e nutre-se de amor e compaixão, de fidelidade a Deus e ao irmão, sempre na busca da ligação entre as coisas deste mundo com o divino, transformando-o no próprio Reino de Deus.

Tal situação, além de refletir a responsabilidade da humanidade em ser o seu próprio agente de mudança, traz-nos, também, a confiança que Deus tem em cada um de nós que, apesar de limitados e finitos, somos capazes, se desejarmos, de santificarmos o mundo, desde que acolhamos a sua revelação e a transformemos em ações do cotidiano.

Esta é a nossa missão – fazer deste mundo o Reino de Deus. Para tanto, aceitemos que Deus, por sua revelação, fruto de seu amor infinito por cada um de nós, faça-se presente e atuante em nossa vida.

Um fraterno abraço,

Padre João Milton Menezes

____________________________________________
11650636_865689293515412_703155432_nJoão Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização   em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF e atende os mais necessitados em diversos trabalhos. Vive atualmente em Brasília, DF.
Contato: freijomilton@fradesfranciscanos.com

logo1

FRADES FRANCISCANOS
Ordem de São Francisco – OSF
Igreja Anglicana Tradicional do Brasil

CONTATOS:
Site: http://www.fradesfranciscanos.com
E-mail: contato@fradesfranciscanos.com
Blog: https://fradesfranciscanos.wordpress.com
Twitter: @fradesosf
Facebook: https://www.facebook.com/ordemdesaofrancisco
Instagram: @fradesosf

Anúncios

Sobre Editor

João Martins (Prof. Omar Martins) é editor deste blog e possui formação em Filosofia, História e Pedagogia de Anos Iniciais. Professor há mais de 20 anos, cursou Filosofia (Unilasalle), História (UFRGS) e mestrados em Filosofia (PUC-RS/Universitat Heidelberg) e Ciências da Educação (FPCEUP). Atualmente, é investigador em Filosofia da Educação (Ph.D. Fellow - U.Porto, Portugal). Atua no magistério para concursos públicos há 15 anos, ministrando cursos nas áreas de Educação, Atualidades, Direitos Humanos e Legislação Aplicada à Educação em cursos presenciais e EAD nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro.

Publicado em 30/06/2015, em Formação, Frei Milton OSF e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Franciscanos Anglicanos

    parabéns pela sua matéria, muito salutar e edificante.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: