Que todos tenham pão!

multiplicação dos pães

Amadas irmãs e amados irmãos em Cristo, que todas e todos vocês estejam em paz!

A narrativa da multiplicação dos pães é a única que se repete, com muita similitude e de forma detalhada, nos quatro evangelhos canônicos.

Vamos ler o citado episódio e, em seguida, refletirmos juntos a respeito.

A essa notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé. Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes. Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: “Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia”. Jesus, porém, respondeu: “Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer”. Mas, disseram eles: “Nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes”. “Trazei-nos”, disse-lhes o Senhor. Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo. Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças.

Muitos se atem ao significado literal da Sagrada Escritura, em seu contexto histórico, cultural e geográfico, especialmente no que concerne aos milagres realizados por Jesus e narrados pelos evangelistas.

Em que pese a importância de tais sinais, todos levados pelo infinito amor de Cristo pela humanidade, alimentando os famintos, aliviando os sofredores, curando os doentes e, até mesmo, ressuscitando os mortos, vamos conduzir nossas reflexões sobre a narrativa acima apresentada ampliando nosso foco, tentando abrir nossa mente e nosso coração para as revelações divinas que poderemos nela encontrar.

Aplacar a fome de alguém, apesar de ser um evidente ato de bondade, que o próprio homem poderia incluir em seu cotidiano, por mais simples e óbvio que possa parecer, ainda é algo a ser mais desejado, e rotineiramente introjetado no seio da humanidade. Jesus, por amor, por compaixão, repartiu o pão e aliviou a fome de muitos. Uma ação, aparentemente simples, mas que ainda não a rotinizamos em nossa vida.

Apesar de milhões de famintos no mundo chegarem a morrer de fome, mesmo perplexos e com um sentimento de pena, não de compaixão, assistimos passivamente tal acontecimento. Gasta-se muito mais em armamentos para matar o próximo do que para alimentar os desvalidos. E o mundo, atônito, acaba tomando partido de um dos lados dos conflitos, mas muito pouco, efetivamente, mobiliza-se para reverter, pelo menos parte desses gastos, para alimentar aqueles que mal conseguem levantar-se por causa da fome que lhes consome. Chegamos a ficar aliviados de nossa culpa pela condição de abastados, ao darmos migalhas que nos sobram aos necessitados que chegam próximos de nós, pois o deslocamento maior para irmos até eles não nos é possível pela “falta de tempo e de oportunidade”, belas justificativas para esconder nossa falta de disposição e interesse. Ajudamos, quando muito, a quem está próximo, com o que nos excede, enquanto os que estão distantes, além do nosso campo de visão, sequer chegam a incomodar nossa consciência, é algo que “não nos compete”, está “fora de nossa responsabilidade”.

Qual a obrigação que tinha Jesus com aquela multidão faminta, além de seu amor incomensurável por cada um deles? E nós, quando apregoamos nossa cristandade, como buscamos nos assemelhar a Jesus, em sua trajetória humana por este mundo? Buscar seus ensinamentos e seu exemplo, quando o fazemos, sem que os convertamos em prática de vida, jamais nos fará um cristão, no máximo um simpatizante pelas obras e orientações de Nosso Senhor.

Pois bem, além da compaixão infinita do Cristo Jesus pelos necessitados, mobilizando-o à concretude da ação de alimentá-los, ele o fez por intermédio da ajuda dos seus discípulos. Solicitou a eles que buscassem o que dispunham, mesmo que pouco, ou quase nada diante da multidão, mas servia, sempre serve, sempre é possível dividir, repartir o que se tem, objetivando compartilhar com nossos irmãos, sempre é possível ajudar quem necessita, mesmo que se disponha de pouco.

Por intermédio dos discípulos, Jesus repartiu o pão, deu do pouco que dispunha a quem nada tinha, e assim o fez com tamanho amor que, além de alimentar os famintos, sobrou muito mais do que se tinha antes, para que se pudesse utilizar, posteriormente, com outros necessitados.

Não há limites para a compaixão com o próximo. O amor é a única coisa no mundo que, ao ser aplicado, não diminui, pelo contrário, multiplica-se com o uso. Do pouco que se tem muito se pode dar, e quanto mais se dá, maior é a quantidade disponível para se ofertar.

Vejam que extrapolamos o pão físico. A revelação evangélica ultrapassa os limites da fome física. Levemos o ensinamento com a passagem de hoje para além da concretude do alimento do corpo. Percebam que a multiplicação dos pães nos revela, não apenas o alimento físico que se multiplicou pela compaixão de Cristo pela humanidade, mas também a possibilidade e a importância de multiplicarmos o amor pelos nossos irmãos, por menos que dispomos, por maiores que sejam nossas amarguras, apesar de todas as nossas limitações.

O pão multiplicado, além do alimento do corpo, representa o alimento da alma, sendo distribuído, por solicitação de Cristo Jesus, pelos discípulos, grupo esse que nos inserimos, ao reconhecermos em nós a essência cristã.

Ser cristão, ser discípulo de Jesus, vai muito mais além de práticas formais religiosas. Necessariamente, envolve ações cotidianas, atitudes diárias discipulares, a busca contínua de imitarmos Jesus em sua natureza humana. Ao orientar seus discípulos a darem de alimento para os famintos, de corpo e de alma, mesmo com a ínfima quantidade de pão (pão da vida) disponível, aparentemente incompatível com a necessidade, não se limitava aos discípulos presentes naquele momento, tampouco aos famintos que lá se encontravam, nosso Senhor apontava o caminho para todos os que desejam segui-lo, dispor do que tem, mesmo sendo pouco, e sempre compartilhar com os que necessitam. Certamente, tal atitude terá sua bênção, propiciando que repartir o disponível seja suficiente para todos, havendo, inclusive, após a partilha, a sobra para que mais e mais pessoas possam se beneficiar.

Que nós saibamos repartir o que temos com nossos irmãos, tanto bens materiais, como espirituais. Não por obrigação, ou por expiação relacionada a faltas preteritamente cometidas, ou ainda para conquistar “olhares” melhores do Altíssimo, mas por compaixão, sem qualquer intencionalidade egoística, por puro amor que, em essência, se encontra em todos os seres. Assim, fatalmente, tais bens serão multiplicados.

Cuidado, esse caminhar não aponta para os benefícios materiais que poderemos ter com a repartição dos bens. Não estou me referindo a uma possível prosperidade material em decorrência de compartilharmos o que dispomos. Estou falando da multiplicação do que temos e, com isso, a possibilidade de ajudarmos a muito mais do que poderíamos imaginar. É a multiplicação do alimento, do corpo e da alma, para que possamos, apesar das aparentes limitações, avançar no apoio de um maior número de pessoas, comparado a nossa expectativa inicial.

Incluamo-nos dentre os discípulos de Cristo Jesus e busquemos seguir suas orientações como tal, em especial, no compartilhar com o que temos, mesmo sendo pouco, com aqueles que têm menos do que nós.

Um fraterno abraço e que a paz do Senhor esteja sempre na vida de vocês!

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
Contato: freijomilton@fradesfranciscanos.com


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Sobre Frei Fábio, OSF

Formando em Filosofia, Ministro Provincial da Ordem de São Francisco, OSF no Brasil, amante e um defensor da ecologia. Apoia e desenvolve trabalhos com moradores de rua, e os mais oprimidos pela sociedade, realiza palestras sobre franciscanismo, bíblia, ecologia, amorização.

Publicado em 03/08/2015, em Formação, Frei Milton OSF e marcado como , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Carlos Ayres Santos Fonseca

    Meu ser louva ao trino Deus, por esta Ordem Religiosa que corresponde as nossas realidades de vida pragmática e cristocêntrica. Em vossas preces, intercedam ao Criador do Universo pelas Comunidades de Salinópolis – PA.

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