São Francisco: ruptura e continuidade

Francisco pelo mundo

Olhar para São Francisco de Assis do século doze nos ajuda a olharmos para nossa própria história de vida e social dos nossos tempos.

Desde muito jovem Francisco sofreu sob pressões e polaridade expressivas.

A primeira tensão que impulsionou Francisco foi com ele mesmo. Ainda jovem deu-se conta da vida fútil que levava. As festas, as bebidas, os prazeres com os amigos o faziam se sentir vazio e com a vida sem sentido.

Fosse hoje diríamos que Francisco conscientizou-se da futilidade de uma vida burguesa, baseada em consumo de prazeres sem projeto existencial mais profundo.

Nosso santo entrou em crise profunda e esta o conduziu a uma ruptura que o fez se sentir sem rumo por falta de projeto. A partir daí viveu um tempo sem saber que caminho tomar para substituir os ruídos de uma vida jovem agitada e com gastos de muito dinheiro vindo de um pai rico.

A segunda ruptura foi com o estado de guerra que levava a sociedade feudal a edificar-se sobre o sangue derramado de trabalhadores e proprietários de terras que as perdiam para outros mais poderosos.

Francisco buscava fama e títulos de cavaleiro, barão, conde e de proprietário rico, sempre a partir da guerra. Até que aí entrou em crise mais profunda do que a primeira que cumulativamente o ajudou a produzir ruptura com mais profundidade.

Talvez a saudação “pax et bonum” – paz e bem – que corresponde ao shalom hebraico, que mais do que paz interior é paz humana abrangente para dentro e para fora de cada indivíduo, levando a pessoa a consequentemente agir no próximo e na natureza de modo a libertá-los de tudo os que ameacem sua paz.

Com a ruptura o jovem Francisco libertou-se do estado de guerra instalado nele mesmo pela sociedade violenta das cruzadas e reforçado por seu pai, com quem também rompeu, abrindo mãos das riquezas e prosperidade erigidas sobre a guerra e matança de pessoas, que beligeravam em troca das propriedades e dos jogos de interesses de classes e políticos.

A ruptura que determinou mudança de vida em Francisco foi com uma forma religiosa de ser igreja que ele denominou de “igreja quebrada e estragada”, marcada por ser o cristianismo instituição do poder político sem compromisso com Jesus e seu projeto para a humanidade.

O ouvir a voz de Jesus significava para ele transcender-se de seu imanentismo medíocre de uma religiosidade ritualística e sem vida. Ao ouvir a voz de Jesus o assisense transcendeu de uma vida sem sabor de quem foi destinado pelo pai a ser um empresário de sucesso, satisfeito com muito dinheiro e negócios, cuja marca era a exploração dos servos.

A voz que Francisco dizia ouvir o chamou a reconstruir a Igreja. O Papa Clemente III também sonhou que Francisco segurava a Igreja para que ela não despencasse. Confuso, o jovem de Assis entendeu tratar-se da reconstrução do templo de sua cidade italiana, tarefa a que se entregou com responsabilidade e dedicação. No processo a consciência se firmou de que a Igreja a que a voz se referia tratava-se da comunidade, do povo, dos pobres, dos doentes, dos leprosos, dos feridos pelas guerras e pelo ódio.

Para realizar seu sonho Francisco começou por reunir irmãos e irmãs, que se transformou na Ordem de São Francisco, com o objetivo de viver a radicalidade da partilha do pão e da dignidade humana para os pobres.

A biografia de Francisco também testemunha seu profundo amor à natureza. Ele chamava a tudo de irmão e de irmã: irmão sol, irmã lua, irmã água e até irmã morte.

A guisa de conclusão pode-se acolher São Francisco com suas rupturas e continuidades, sempre atuais para nosso mundo do século XXI.

Nossa vida cristã e franciscana é de alegria, mas não de prazeres fúteis e burgueses de quem superficialmente vive como se nada de importante houvesse na vida. É preciso romper permanentemente o “status quo” que insiste em futilizar a existência.

Não é aceitável vivermos de modo a ignorar as grandes tragédias que atingem a humanidade, o mundo e cada um de nós. É preciso romper com esta inércia alienada.

Nosso mundo de hoje e desde sempre é resultante da guerra e as pessoas vivem para a guerra. As pessoas facilmente confundem direitos com a rompância de se acharem donas de tudo. Por isso brígamos e guerreamos. Como diria Freud, guerreamos pelo poder. No Congresso Nacional as bancadas da Bíblia e da Bala são integradas pelas mesmas pessoas, que acham normal serem cristãs e donas de fábricas e do comércio de armas, ao mesmo tempo.

Há um estado dominante imoral de guerra com o qual precisamos romper, como São Francisco.

Estudar São Francisco implica em rompermos com uma cristandade sem Cristo e sem o projeto de Jesus. É preciso ouvir o Jesus da cruz, como Francisco o escutou.

O Cristo da cruz irrompe da história proclamando a causa do reino de compaixão pelo próximo e pela vida abundante, que Ele radicalizou não tergiversando com a cruz.

Basta de “cristo” sem cruz, sem história, sem corpo, sem encarnação. Basta do “cristo” dos negócios do mercado religioso. Com São Francisco ouvimos a voz do Cristo que fala e nos interpela a construirmos a prática da compaixão, tornando-nos nós mesmos experimentadores da vida em comunidade.

A compaixão do Cristo vivo da Palestina irrompe no mundo hoje clamando a que sejamos irmãos e irmãs do próximo e do mundo planetário ameaçado pela guerra implantada pela insensatez semelhante a do Pietro Bernardone, pai de Francisco.

Francisco combatia a propriedade argumentando que depois dela vêm as armas para defendê-la. Assim: quem se sente dono de coisas guerreia para defendê-las, bem como é o mundo de hoje.

Ser franciscano hoje traz como consequência vivenciarmos uma eclesialidade capaz de nossos encher de ternura e de compaixão uns pelos outros. O serviço radical em favor uns dos outros é o caminho da compaixão.

Tal experiência dá sabor para as celebrações e graça para nossas ações necessariamente práticas em favor de uma sociedade mais justa é dominada pelo que o franciscano Leonardo Boff chamou de o humano de São Francisco de Assis.

O humano transcende distâncias, separações do outro, preconceitos que esfriam e congelam relações.

São Francisco é exemplo de rupturas dinâmicas e constantes na vida de fé, necessariamente embalada pela desacomodação e pelos desafios.

As marcas que nos desafiam são as de sempre de rompermos com o desumano e retomarmos a continuidade com Jesus, seguidamente esquecido e substituído por nossos pecados.

O hino da compaixão pelo próximo e pela natureza estampa-se rico de partituras da vida. Há que cantarmos e dançarmos dando Graças ao Senhor.


Frei Dom OrvandilDom Frei Orvandil, OSF é o atual bispo da diocese Brasil Central da IATB, professo perpétuo, Professor Universitário, Bacharel em Teologia pelo Instituto Porto Alegre, Licenciatura em Filosofia pela Universidade Passo Fundo RS, Doutorado em Filosofia pela La Pontifícia Universidad Católica de Salamanca, Espanha e Doutorado em Teologia pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo RS. Vive atualmente em Goiânia GO, onde fundou a Ibrapaz, e milita em defensa dos menos favorecidos, pregando a justiça, paz e formação de pessoas conscientes. Escreve toda semana para jornais e edita o blog Cartas Proféticas onde expõe sua opinião sobre temas de extrema importância para construção de uma sociedade mais justa.

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Sobre Frei Fábio, OSF

Formando em Filosofia, Ministro Provincial da Ordem de São Francisco, OSF no Brasil, amante e um defensor da ecologia. Apoia e desenvolve trabalhos com moradores de rua, e os mais oprimidos pela sociedade, realiza palestras sobre franciscanismo, bíblia, ecologia, amorização.

Publicado em 08/08/2015, em Dom Frei Orvandil, Formação e marcado como , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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