“Tome sua cruz e siga-me!”

Tome sua cruz e siga-me

Minhas irmãs e meus irmãos em Cristo Salvador:

Jesus, em passagem bíblica narrada por São Mateus, após ter sido reconhecido como o Filho do Deus vivo pelos seus discípulos, inicia o anúncio de sua paixão, exortando a todos que, para segui-lo, muitos serão os desafios a serem enfrentados.

Convido a todas e todos vocês para que, após a leitura da referida passagem, reflitamos sobre sua aplicação em nosso dia-a-dia.

Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia. Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá! Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?… Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras. (Mt 16:21-27)

No trecho evangélico que antecede ao acima apresentado, narrado por Mateus, ao questionar qual a visão que seus discípulos tinham a seu respeito, ouve de Simão Pedro a reconhecida primeira profissão de fé sobre a sua messianidade, ou seja, o reconheciam como o Filho do Deus vivo, esperando, assim, por parte do Senhor, a salvação do seu povo, tão anunciada pelos profetas.

Imediatamente após, Jesus apresenta-lhes uma realidade crua e espantosa aos presentes, iniciando o anúncio de seu sofrimento e morte que estavam por vir, para que, de fato, a salvação, não apenas do povo judeu, mas de toda humanidade, pudesse ser conquistada. Que o Deus vivo, o Salvador encarnado, não era um guerreiro que viera para conquistas terrenas, mas sim para vitórias perenes e espirituais, para o domínio do verdadeiro inimigo – o apego aos prazeres terrenos.

Imaginem a dificuldade, o espanto e o temor dos discípulos que depositavam toda a confiança e esperança no Mestre, crendo fervorosamente no poder de libertação daquele que era o Deus vivo: Jesus, Filho de Davi! Difícil avaliarmos o pânico e, até mesmo, a frustração dos seguidores próximos de Cristo Jesus, ao ouvirem sobre o sofrimento que estava por vir. Razão para que Pedro, o destemido e açodado discípulo, rapidamente interviesse, rechaçando a possibilidade do sofrimento do Mestre e, consequente, abandono aparente de seus seguidores, postura que gerou veemente reprimenda de Jesus.

Reflitamos, amadas e amados, sobre a reação de Pedro, tão semelhante a nossa, diante das adversidades e dificuldades diárias. Delas tentamos fugir e temos a tendência de vê-las como castigos e desnecessárias experiências, buscando, por nossas orações, ou até mesmo por blasfêmias, o seu afastamento. “Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” Assim agimos para conosco, numa postura de tropeço e fuga da verdade. Há quem diga que somos, rotineiramente, satanás para nós mesmos. Não na personificação do diabo, na figura do demônio, mas na atitude de impedimento de seguirmos os caminhos necessários para a nossa evolução espiritual. O sentimento humano de Pedro deseja o não sofrimento do amado Mestre, tampouco o imaginado abandono e a aparente perda de seus seguidores.

Vejam, não estamos fazendo uma apologia à necessidade do sofrimento para a salvação, mas sim do enfrentamento corajoso e confiante de nossa realidade cotidiana. Destacamos, assim como Jesus frisou, que a busca da satisfação nessa vida, dos prazeres mundanos, sensoriais e absolutamente temporais, em nada nos ajudará na busca da santidade. Porém, normalmente, os colocamos como prioridades de vida.

A humanidade, no temor e no desconhecimento do porvir, embasados em sua essencial limitação, fixa-se, tão ferozmente, nas conquistas momentâneas, mas, absolutamente, passageiras e finitas. Ao partirmos, nenhuma delas seguirá conosco. A nossa fé é limitada e medrosa, assim como fora a reação de Pedro ao tentar afastar a paixão de Jesus. Se o Filho de Deus vivo sofreria, imagina eles, simples mortais? Não, ele não queria o sofrimento, tampouco cada um de nós o queremos.

Afinal, desejamos, de fato, ser cristãos, ou crer em apenas alguns de seus ensinamentos, especialmente aqueles que não incomodam a nossa condição humana? Desejamos seguir Cristo Jesus, em direção à nossa verdadeira salvação, ou enaltecer seus ensinamentos e utilizar somente aqueles que nos alivia o cotidiano terreno? Se quisermos ser verdadeiros discípulos de Cristo, cumpramos suas orientações:

Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. (Mt 16:24)

Perder a vida por Cristo não significa matarmo-nos fisicamente, suicidarmo-nos em busca de “outra” vida. Representa, tão somente, o desapego das coisas tolas e passageiras, centrando em nossa vida os ensinamentos de Cristo, ou seja, sermos, de fato, seus seguidores, vivendo seus ensinamentos e seguindo seu caminhar: termos a coragem de amar nossos semelhantes, independente de qualquer diferença existente; termos compaixão com o próximo, independente de quem seja; buscarmos a justiça social, independente dos possíveis conflitos a serem enfrentados; ampararmos os sofredores, independente dos necessários sacrifícios. Isso é “morrer”, isso é perder a vida para seguir os passos de Jesus.

Caso contrário, se continuarmos endeusando as coisas, as posses, as aparências, os prazeres passageiros e fúteis, se mantivermos-nos vaidosos e obcecados pelo poder do mundo, como nos diz o próprio Cristo: “Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida?” Prejudicar a sua verdadeira e perene vida!

Nunca me esqueço das palavras de Dostoievsky: “Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento.” Não que busquemos o sofrimento para nossa expiação, tampouco que dele gostemos e a ele nos apeguemos, mas que tenhamos fé. Creiamos que no sofrimento, no carregar a cruz, no auxílio cotidiano de nossos irmãos, independentemente do que tenhamos de fazer ou passar, estaremos amparados pelo Altíssimo, estaremos caminhando pelas estradas da evolução espiritual.

Assim como não há ressurreição sem morte, não há mudança sem perda. Sofremos com as limitações, as privações e com o processo de desapego das coisas e prazeres deste mundo, mas, por outro lado, ganhamos, pela perseverança com fé, a verdadeira vida.

Um fraterno abraço e que a paz do Senhor esteja sempre na vida de vocês!

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano, entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
Contato: freijomilton@fradesfranciscanos.com


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Sobre Frei Fábio, OSF

Formando em Filosofia, Ministro Provincial da Ordem de São Francisco, OSF no Brasil, amante e um defensor da ecologia. Apoia e desenvolve trabalhos com moradores de rua, e os mais oprimidos pela sociedade, realiza palestras sobre franciscanismo, bíblia, ecologia, amorização.

Publicado em 11/08/2015, em Formação, Frei Milton OSF e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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