Homilia 20º Domingo do Tempo Comum – Assunção de Nossa Senhora

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Assuncao osf

Amadas irmãs, amados irmãos, saudações de Paz e Bem!

Hoje, 15 de agosto, celebramos a festa da Assunção de Maria.

A celebração da Assunção de Nossa Senhor vem ocorrendo desde os primórdios da cristandade, cujo início se deu com a celebrada da Dormição de Maria. Sua oficialização ocorreu no século VII, tanto pelos cristãos orientais como pelo ocidentais, sendo alterada pela Igreja Romana, no entanto, mais de um século depois, para Assunção de Maria.

Não pretendemos, nesta reflexão, fazer qualquer tipo de comparação entre a origem das concepções cristãs do oriente e do ocidente – Dormição e Assunção da Virgem Maria. Tentaremos buscar, somente, o que podemos compreender e aplicar em nosso cotidiano sobre tal solenidade.

Creio que o ponto principal de nossa reflexão em relação a Assunção de Nossa Senhora deva ser a esperança.

Em que pese todos os méritos de Maria – sua entrega incondicional, sua humildade impar e sua plena obediência a Deus –, devemos ter a clareza de que, ao refletirmos sobre sua assunção, temos de identificar de forma destacada, além da glória de Maria, a misericórdia e o poder de Deus Salvador nela glorificados. Tal aspecto deve ser evidenciado ao partirmos do princípio de que a Assunção de Maria é, acima de tudo, uma antecipação do que ocorrerá com todos nós – nossa deificação – prometida pelo batismo e garantida pelo Cristo Jesus Redentor.

Rotineiramente, fazemos a distinção entre o corpo humano (o físico), o psíquico e o espiritual, como se, na prática, pudéssemos evidenciar tal separação, como se pudéssemos perceber seus limites divisórios. Maria, ao ser infundida pelo Espírito Santo, é tomada de forma inteira por Ele, deixando de viver por si e passando a viver plenamente pelo Espírito.

Entretanto, além de destacarmos o que a tradição cristã afirma referente ao corpo incorruptível de Maria, levando-a, assim, a participar, de corpo e alma da glória de seu filho, nosso Senhor, lembremo-nos de que a mesma glória aguarda por cada um de nós, se, em vida, viermos a realizar, como Maria, de forma plena, o plano de Deus. Não devemos nos esquecer de que nosso ser – corpo e alma – está destinado à gloria com Cristo Jesus e Maria.

Por isso, o dogma da Assunção de Nossa Senhora é profético, além de ser voltado à glorificação de Maria. Pois a morte vencida pelo poder de Cristo ressuscitado atinge a todos que desejam segui-lo de forma plena e incondicional.

Não é sem razão que a passagem evangélica de hoje é a narrada por São Lucas, trazendo-nos a virgem Maria, após a sua obediente entrega diante da anunciação do Anjo, ao visitar sua prima Isabel e cantando o belíssimo Magnificat. Cabe o destaque, porém, para a pouca probabilidade deste cântico ter sido proferido por Maria exatamente como nos é apresentado, especialmente pelo lapso transcorrido entre o fato narrado e a escrita do evangelista. Entretanto, ele nos mostra como a comunidade cristã via a Virgem Maria, representa um verdadeiro testemunho sobre sua pessoa apresentado pela cristandade à época.

Associado à destacada entrega incondicional de si, colocando-se como serva humilde e obediente do Senhor, cabe a observação desse maravilhoso canto, em cada uma de suas partes.

Vejamos, primeiro, o cântico em sua íntegra:

Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre. (Lc 1,46-55)

Sua primeira parte (vv. 46-50) nos apresenta Maria como a mulher de intensa fé e sua entrega incondicional a Deus como humilde serva, agradecendo ao Senhor e a Ele louvando. Humildade que, além de ser por ela apresentada, tem sua representação máxima na humanização de Deus em seu seio, fazendo-se homem, para que pudesse, ao nos redimir, levar-nos para junto do Criador, glorificação esta antecipada e exemplificada pela Assunção de Maria. Alguns autores dividem esta parte em duas. Na primeira delas a glorificação e o agradecimento humilde de Maria ao único Deus a quem se deve toda honra e toda glória, “Ao Rei dos séculos, Deus único, invisível e imortal, honra e glória pelos séculos dos séculos!” (1Tm 1,17). Na segunda subdivisão, seu agradecimento estende-se à misericórdia divina que abarca toda humanidade, em todos os tempos.

Na segunda parte do Magnificat (vv. 51-53), encontramos Maria profetizando, como membro da humanidade, as ações divinas em favor dos pobres e dos humildes, traz-nos as verdadeiras relações sociais fraternas a serem estabelecidas no Reino de Deus, alimentando os famintos, consolando os aflitos, libertando os aprisionados, exaltando os oprimidos e elevando os humildes. É uma clara antecipação das Bem-aventuranças do Sermão da Montanha, certamente, o texto mais importante do Novo Testamente que nos apresenta Mateus.

Na terceira e última parte (vv. 54-55), Maria mantém seu humilde tom de agradecimento e louvor e, como israelita com consciência histórica, traz as ações de Deus desde Abraão, celebrando a fidelidade divina pelo cumprimento de suas promessas, especialmente junto ao povo sofrido.

Que aprendamos com Maria, deixando-nos ser consumidos pelo fogo do Espírito Santo e por Ele transformados, para que, juntamente com ela, sejamos confiscados pela glória de Deus.

O próprio Lutero compreendeu tal aspecto, o que nos apresenta na introdução em seu livro Magnificat, escrito em 1521:

Para entendermos este santo cântico de louvor em sua ordem, deve-se considerar que a altamente louvada virgem Maria fala de experiência própria, na qual ela foi iluminada e instruída pelo Espírito Santo. Pois ninguém é capaz de entender corretamente a Deus ou a palavra de Deus a não ser que o tenha do Espírito Santo; todavia, ninguém o pode ter do Espírito Santo se não o experimentar, sentir ou perceber. Nessa experiência o Espírito Santo ensina como em sua própria escola; fora dela nada se ensina além de palavras que buscam a aparência e conversa vazia. É este o caso da santa virgem. Depois de ter experimentado em sua própria pessoa que Deus realiza nela coisas tão grandes, apesar de ter sido nada, insignificante, pobre e desprezada, o Espírito Santo lhe ensina este rico conhecimento e sabedoria: que Deus é um Senhor que não faz outra coisa do que exaltar o que é humilde, de humilhar o que é elevado, em suma, de quebrar o que está feito e de refazer o que está quebrado.

Neste dia que comemoramos a Assunção de Nossa Senhora, devemos renovar nossa esperança da ressurreição, nela já realizada, com a vitória gloriosa e definitiva sobre o mal e a morte e que a ela, mediadora de todas as graças, roguemos, por sua intercessão junto a nosso Senhor Jesus Cristo, com vistas ao fortalecimento de nossa fé, para sermos dignos de nossa salvação.

Um fraterno abraço,

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano, entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
Contato: freijomilton@fradesfranciscanos.com


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Sobre Frei Fábio, OSF

Formando em Filosofia, Ministro Provincial da Ordem de São Francisco, OSF no Brasil, amante e um defensor da ecologia. Apoia e desenvolve trabalhos com moradores de rua, e os mais oprimidos pela sociedade, realiza palestras sobre franciscanismo, bíblia, ecologia, amorização.

Publicado em 15/08/2015, em Assunção de Nossa Senhora, Formação, Frei Milton OSF, Homilia Dominical e marcado como , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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