Arquivo da categoria: Frei Milton OSF

A verdadeira exaltação da Santa Cruz!

Amadas irmãs e amados irmãos, saudações de Paz e Bem!

Exaultação da cruz1

Dia 14 de setembro é celebrada a exaltação da Santa Cruz. Tal prática, muito mais difundida no oriente que no ocidente, teve seu início com a inauguração da Basílica da Ressurreição, atual Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, no século IV, mais precisamente em 335. Sua construção ocorreu a mando do Imperador Constantino, sendo consagrada em setembro do referido ano, ao receber as relíquias da Santa Cruz, descoberta, cinco anos antes, por inspiração divina, pela mãe do imperador – Santa Helena. No ocidente, tal comemoração foi oficializada apenas sete séculos depois, permanecendo, até os dias de hoje, menos popular que no oriente.

Muitos questionam a cruz ser o símbolo maior do cristianismo, alegando que se cultua, dessa forma, mais a morte de Jesus, do que sua vida, seus ensinamentos e seus exemplos, exaltando-se, assim, um deus morto.

Eis um grande equívoco!

Não se exalta um deus morto, não se reverencia o instrumento de humilhação e morte, muito menos se enaltece a finitude da existência do Salvador.

A cruz é um símbolo de vitória, de superação, de transformação e, acima de tudo, de salvação. Não é sem razão que, no oriente, pelas Igrejas Ortodoxas, a imagem da cruz não vem acompanhada do Crucificado, exatamente para destacar a importância do símbolo gerador da ressurreição e libertação da humanidade e não da vergonha e morte do Senhor. Até porque Ele não mais morto está, pois vivo se encontra em nosso meio.

Lembremo-nos do Evangelho Joanino que, ao longo de sua narrativa, destaca a cruz como um momento de triunfo sobre a morte e vitória sobre a pequenez mundana.

Não há ressurreição sem morte, renovação sem a eliminação do velho, assim como não há transformação da humanidade, em direção de sua essência divina, sem que sejam superadas suas limitações humanas. Assim, a exaltação da Santa Cruz não é uma prática que traz à lembrança cotidiana da morte de Jesus, de seu sofrimento e humilhação, mas sim, destaca o infinito amor divino que nos agraciou, apesar de nossas limitações humanas, com a possibilidade da salvação.

O homem Jesus, como os escravos da época, de forma vergonhosa perante os homens, padeceu e foi crucificado. Porém, despojado de sua natureza humana, vitoriosamente morreu e divinamente ressuscitou, dando-nos a trilha da salvação. Não que tenhamos de nos mortificar ou morrer fisicamente de forma agonizante, mas indicou que o caminho para a verdadeira vida é a superação, a libertação de nossa natureza humana, é o rompimento da corrente que nos aprisiona às satisfações deste mundo que nos encantam, realidade esta ludibriadora, temporal e ilusório.

Imaginemos a cruz como instrumento de transformação, como representação de nossa mudança, como caminho que, morrendo para as coisas do mundo, poderemos alcançar a vida eterna, ou seja, a verdadeira vida. Dessa forma, a verdadeira exaltação da Santa Cruz sustenta-se na nossa ligação com o Divino e na possibilidade que nos é dada, a cada momento, de morrermos humanamente com Jesus e ressuscitarmos divinamente com o Cristo.

Carreguemos a nossa cruz, vivamos nossa via crúcis em direção ao calvário de nossa humana pequenez, para que, crucificados e mortos para as ilusões deste mundo, possamos ressuscitar com Cristo e atingir a plenitude da vida, a verdadeira vida.

Assim nos exortou São Paulo, em carta para os romanos: “Se morremos com Cristo, cremos também que viveremos com Ele” (Rm 6,8)

Que a paz do Senhor inunde a vida de cada uma e cada um de vocês.

Um fraterno abraço,

Frei João Milton, OSF


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O homem da décima primeira hora: “Os últimos serão os primeiros”

São João Crisostomo

Que fez, pois, o ladrão para receber em herança o paraíso, logo a seguir à cruz? […] Enquanto Pedro negava Cristo, o ladrão, do alto da cruz, dava testemunho Dele. Não digo isto para denegrir Pedro; digo-o para pôr em evidência a grandeza de alma do ladrão. […] Aquele ladrão, enquanto toda a populaça se mantinha à sua volta, acusando, vociferando, cobrindo-os de blasfêmias e de sarcasmos, não lhes deu a menor importância. Nem sequer teve em conta o estado miserável da crucifixão que se erguia diante dele. Lançou sobre tudo isso um olhar cheio de fé. […] Virou-se para o Senhor dos céus e, entregando-se a Ele, disse: “Lembra-te de mim, Senhor, quando fores para o teu Reino” (Lc 23, 42). Não menosprezemos o exemplo do ladrão nem tenhamos vergonha de o tomarmos como mestre, a ele que nosso Senhor não desdenhou de fazer entrar no paraíso em primeiro lugar. […]

Ele não lhe disse, como fizera a Pedro: “Vem, segue-Me e farei de ti um pescador de homens” (Mt 4, 19). Também não lhe disse, como aos Doze: “Sentar-vos-eis sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19, 28). Não o agraciou com nenhum título; não lhe mostrou qualquer milagre. O ladrão não O viu ressuscitar dentre os mortos, nem expulsar demônios; não viu o mar obedecer-Lhe. Cristo não lhe disse nada acerca do Reino, nem da geena. E, contudo, deu testemunho dEle diante de todos e recebeu o Reino em herança..

 

São João Crisóstomo (c. 345-407), Arcebispo  de Constantinopla,
Homilia para Sexta-feira Santa «A Cruz e o ladrão»
(a partir da trad. Année en fêtes, Migne 2000, p. 277)
Fonte: 
Evangelho Cotidiano


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Homilia 20º Domingo do Tempo Comum – Assunção de Nossa Senhora

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Assuncao osf

Amadas irmãs, amados irmãos, saudações de Paz e Bem!

Hoje, 15 de agosto, celebramos a festa da Assunção de Maria.

A celebração da Assunção de Nossa Senhor vem ocorrendo desde os primórdios da cristandade, cujo início se deu com a celebrada da Dormição de Maria. Sua oficialização ocorreu no século VII, tanto pelos cristãos orientais como pelo ocidentais, sendo alterada pela Igreja Romana, no entanto, mais de um século depois, para Assunção de Maria.

Não pretendemos, nesta reflexão, fazer qualquer tipo de comparação entre a origem das concepções cristãs do oriente e do ocidente – Dormição e Assunção da Virgem Maria. Tentaremos buscar, somente, o que podemos compreender e aplicar em nosso cotidiano sobre tal solenidade.

Creio que o ponto principal de nossa reflexão em relação a Assunção de Nossa Senhora deva ser a esperança.

Em que pese todos os méritos de Maria – sua entrega incondicional, sua humildade impar e sua plena obediência a Deus –, devemos ter a clareza de que, ao refletirmos sobre sua assunção, temos de identificar de forma destacada, além da glória de Maria, a misericórdia e o poder de Deus Salvador nela glorificados. Tal aspecto deve ser evidenciado ao partirmos do princípio de que a Assunção de Maria é, acima de tudo, uma antecipação do que ocorrerá com todos nós – nossa deificação – prometida pelo batismo e garantida pelo Cristo Jesus Redentor.

Rotineiramente, fazemos a distinção entre o corpo humano (o físico), o psíquico e o espiritual, como se, na prática, pudéssemos evidenciar tal separação, como se pudéssemos perceber seus limites divisórios. Maria, ao ser infundida pelo Espírito Santo, é tomada de forma inteira por Ele, deixando de viver por si e passando a viver plenamente pelo Espírito.

Entretanto, além de destacarmos o que a tradição cristã afirma referente ao corpo incorruptível de Maria, levando-a, assim, a participar, de corpo e alma da glória de seu filho, nosso Senhor, lembremo-nos de que a mesma glória aguarda por cada um de nós, se, em vida, viermos a realizar, como Maria, de forma plena, o plano de Deus. Não devemos nos esquecer de que nosso ser – corpo e alma – está destinado à gloria com Cristo Jesus e Maria.

Por isso, o dogma da Assunção de Nossa Senhora é profético, além de ser voltado à glorificação de Maria. Pois a morte vencida pelo poder de Cristo ressuscitado atinge a todos que desejam segui-lo de forma plena e incondicional.

Não é sem razão que a passagem evangélica de hoje é a narrada por São Lucas, trazendo-nos a virgem Maria, após a sua obediente entrega diante da anunciação do Anjo, ao visitar sua prima Isabel e cantando o belíssimo Magnificat. Cabe o destaque, porém, para a pouca probabilidade deste cântico ter sido proferido por Maria exatamente como nos é apresentado, especialmente pelo lapso transcorrido entre o fato narrado e a escrita do evangelista. Entretanto, ele nos mostra como a comunidade cristã via a Virgem Maria, representa um verdadeiro testemunho sobre sua pessoa apresentado pela cristandade à época.

Associado à destacada entrega incondicional de si, colocando-se como serva humilde e obediente do Senhor, cabe a observação desse maravilhoso canto, em cada uma de suas partes.

Vejamos, primeiro, o cântico em sua íntegra:

Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre. (Lc 1,46-55)

Sua primeira parte (vv. 46-50) nos apresenta Maria como a mulher de intensa fé e sua entrega incondicional a Deus como humilde serva, agradecendo ao Senhor e a Ele louvando. Humildade que, além de ser por ela apresentada, tem sua representação máxima na humanização de Deus em seu seio, fazendo-se homem, para que pudesse, ao nos redimir, levar-nos para junto do Criador, glorificação esta antecipada e exemplificada pela Assunção de Maria. Alguns autores dividem esta parte em duas. Na primeira delas a glorificação e o agradecimento humilde de Maria ao único Deus a quem se deve toda honra e toda glória, “Ao Rei dos séculos, Deus único, invisível e imortal, honra e glória pelos séculos dos séculos!” (1Tm 1,17). Na segunda subdivisão, seu agradecimento estende-se à misericórdia divina que abarca toda humanidade, em todos os tempos.

Na segunda parte do Magnificat (vv. 51-53), encontramos Maria profetizando, como membro da humanidade, as ações divinas em favor dos pobres e dos humildes, traz-nos as verdadeiras relações sociais fraternas a serem estabelecidas no Reino de Deus, alimentando os famintos, consolando os aflitos, libertando os aprisionados, exaltando os oprimidos e elevando os humildes. É uma clara antecipação das Bem-aventuranças do Sermão da Montanha, certamente, o texto mais importante do Novo Testamente que nos apresenta Mateus.

Na terceira e última parte (vv. 54-55), Maria mantém seu humilde tom de agradecimento e louvor e, como israelita com consciência histórica, traz as ações de Deus desde Abraão, celebrando a fidelidade divina pelo cumprimento de suas promessas, especialmente junto ao povo sofrido.

Que aprendamos com Maria, deixando-nos ser consumidos pelo fogo do Espírito Santo e por Ele transformados, para que, juntamente com ela, sejamos confiscados pela glória de Deus.

O próprio Lutero compreendeu tal aspecto, o que nos apresenta na introdução em seu livro Magnificat, escrito em 1521:

Para entendermos este santo cântico de louvor em sua ordem, deve-se considerar que a altamente louvada virgem Maria fala de experiência própria, na qual ela foi iluminada e instruída pelo Espírito Santo. Pois ninguém é capaz de entender corretamente a Deus ou a palavra de Deus a não ser que o tenha do Espírito Santo; todavia, ninguém o pode ter do Espírito Santo se não o experimentar, sentir ou perceber. Nessa experiência o Espírito Santo ensina como em sua própria escola; fora dela nada se ensina além de palavras que buscam a aparência e conversa vazia. É este o caso da santa virgem. Depois de ter experimentado em sua própria pessoa que Deus realiza nela coisas tão grandes, apesar de ter sido nada, insignificante, pobre e desprezada, o Espírito Santo lhe ensina este rico conhecimento e sabedoria: que Deus é um Senhor que não faz outra coisa do que exaltar o que é humilde, de humilhar o que é elevado, em suma, de quebrar o que está feito e de refazer o que está quebrado.

Neste dia que comemoramos a Assunção de Nossa Senhora, devemos renovar nossa esperança da ressurreição, nela já realizada, com a vitória gloriosa e definitiva sobre o mal e a morte e que a ela, mediadora de todas as graças, roguemos, por sua intercessão junto a nosso Senhor Jesus Cristo, com vistas ao fortalecimento de nossa fé, para sermos dignos de nossa salvação.

Um fraterno abraço,

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano, entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
Contato: freijomilton@fradesfranciscanos.com


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“Tome sua cruz e siga-me!”

Tome sua cruz e siga-me

Minhas irmãs e meus irmãos em Cristo Salvador:

Jesus, em passagem bíblica narrada por São Mateus, após ter sido reconhecido como o Filho do Deus vivo pelos seus discípulos, inicia o anúncio de sua paixão, exortando a todos que, para segui-lo, muitos serão os desafios a serem enfrentados.

Convido a todas e todos vocês para que, após a leitura da referida passagem, reflitamos sobre sua aplicação em nosso dia-a-dia.

Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia. Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá! Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?… Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras. (Mt 16:21-27)

No trecho evangélico que antecede ao acima apresentado, narrado por Mateus, ao questionar qual a visão que seus discípulos tinham a seu respeito, ouve de Simão Pedro a reconhecida primeira profissão de fé sobre a sua messianidade, ou seja, o reconheciam como o Filho do Deus vivo, esperando, assim, por parte do Senhor, a salvação do seu povo, tão anunciada pelos profetas.

Imediatamente após, Jesus apresenta-lhes uma realidade crua e espantosa aos presentes, iniciando o anúncio de seu sofrimento e morte que estavam por vir, para que, de fato, a salvação, não apenas do povo judeu, mas de toda humanidade, pudesse ser conquistada. Que o Deus vivo, o Salvador encarnado, não era um guerreiro que viera para conquistas terrenas, mas sim para vitórias perenes e espirituais, para o domínio do verdadeiro inimigo – o apego aos prazeres terrenos.

Imaginem a dificuldade, o espanto e o temor dos discípulos que depositavam toda a confiança e esperança no Mestre, crendo fervorosamente no poder de libertação daquele que era o Deus vivo: Jesus, Filho de Davi! Difícil avaliarmos o pânico e, até mesmo, a frustração dos seguidores próximos de Cristo Jesus, ao ouvirem sobre o sofrimento que estava por vir. Razão para que Pedro, o destemido e açodado discípulo, rapidamente interviesse, rechaçando a possibilidade do sofrimento do Mestre e, consequente, abandono aparente de seus seguidores, postura que gerou veemente reprimenda de Jesus.

Reflitamos, amadas e amados, sobre a reação de Pedro, tão semelhante a nossa, diante das adversidades e dificuldades diárias. Delas tentamos fugir e temos a tendência de vê-las como castigos e desnecessárias experiências, buscando, por nossas orações, ou até mesmo por blasfêmias, o seu afastamento. “Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” Assim agimos para conosco, numa postura de tropeço e fuga da verdade. Há quem diga que somos, rotineiramente, satanás para nós mesmos. Não na personificação do diabo, na figura do demônio, mas na atitude de impedimento de seguirmos os caminhos necessários para a nossa evolução espiritual. O sentimento humano de Pedro deseja o não sofrimento do amado Mestre, tampouco o imaginado abandono e a aparente perda de seus seguidores.

Vejam, não estamos fazendo uma apologia à necessidade do sofrimento para a salvação, mas sim do enfrentamento corajoso e confiante de nossa realidade cotidiana. Destacamos, assim como Jesus frisou, que a busca da satisfação nessa vida, dos prazeres mundanos, sensoriais e absolutamente temporais, em nada nos ajudará na busca da santidade. Porém, normalmente, os colocamos como prioridades de vida.

A humanidade, no temor e no desconhecimento do porvir, embasados em sua essencial limitação, fixa-se, tão ferozmente, nas conquistas momentâneas, mas, absolutamente, passageiras e finitas. Ao partirmos, nenhuma delas seguirá conosco. A nossa fé é limitada e medrosa, assim como fora a reação de Pedro ao tentar afastar a paixão de Jesus. Se o Filho de Deus vivo sofreria, imagina eles, simples mortais? Não, ele não queria o sofrimento, tampouco cada um de nós o queremos.

Afinal, desejamos, de fato, ser cristãos, ou crer em apenas alguns de seus ensinamentos, especialmente aqueles que não incomodam a nossa condição humana? Desejamos seguir Cristo Jesus, em direção à nossa verdadeira salvação, ou enaltecer seus ensinamentos e utilizar somente aqueles que nos alivia o cotidiano terreno? Se quisermos ser verdadeiros discípulos de Cristo, cumpramos suas orientações:

Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. (Mt 16:24)

Perder a vida por Cristo não significa matarmo-nos fisicamente, suicidarmo-nos em busca de “outra” vida. Representa, tão somente, o desapego das coisas tolas e passageiras, centrando em nossa vida os ensinamentos de Cristo, ou seja, sermos, de fato, seus seguidores, vivendo seus ensinamentos e seguindo seu caminhar: termos a coragem de amar nossos semelhantes, independente de qualquer diferença existente; termos compaixão com o próximo, independente de quem seja; buscarmos a justiça social, independente dos possíveis conflitos a serem enfrentados; ampararmos os sofredores, independente dos necessários sacrifícios. Isso é “morrer”, isso é perder a vida para seguir os passos de Jesus.

Caso contrário, se continuarmos endeusando as coisas, as posses, as aparências, os prazeres passageiros e fúteis, se mantivermos-nos vaidosos e obcecados pelo poder do mundo, como nos diz o próprio Cristo: “Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida?” Prejudicar a sua verdadeira e perene vida!

Nunca me esqueço das palavras de Dostoievsky: “Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento.” Não que busquemos o sofrimento para nossa expiação, tampouco que dele gostemos e a ele nos apeguemos, mas que tenhamos fé. Creiamos que no sofrimento, no carregar a cruz, no auxílio cotidiano de nossos irmãos, independentemente do que tenhamos de fazer ou passar, estaremos amparados pelo Altíssimo, estaremos caminhando pelas estradas da evolução espiritual.

Assim como não há ressurreição sem morte, não há mudança sem perda. Sofremos com as limitações, as privações e com o processo de desapego das coisas e prazeres deste mundo, mas, por outro lado, ganhamos, pela perseverança com fé, a verdadeira vida.

Um fraterno abraço e que a paz do Senhor esteja sempre na vida de vocês!

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano, entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
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Que todos tenham pão!

multiplicação dos pães

Amadas irmãs e amados irmãos em Cristo, que todas e todos vocês estejam em paz!

A narrativa da multiplicação dos pães é a única que se repete, com muita similitude e de forma detalhada, nos quatro evangelhos canônicos.

Vamos ler o citado episódio e, em seguida, refletirmos juntos a respeito.

A essa notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé. Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes. Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: “Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia”. Jesus, porém, respondeu: “Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer”. Mas, disseram eles: “Nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes”. “Trazei-nos”, disse-lhes o Senhor. Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo. Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças.

Muitos se atem ao significado literal da Sagrada Escritura, em seu contexto histórico, cultural e geográfico, especialmente no que concerne aos milagres realizados por Jesus e narrados pelos evangelistas.

Em que pese a importância de tais sinais, todos levados pelo infinito amor de Cristo pela humanidade, alimentando os famintos, aliviando os sofredores, curando os doentes e, até mesmo, ressuscitando os mortos, vamos conduzir nossas reflexões sobre a narrativa acima apresentada ampliando nosso foco, tentando abrir nossa mente e nosso coração para as revelações divinas que poderemos nela encontrar.

Aplacar a fome de alguém, apesar de ser um evidente ato de bondade, que o próprio homem poderia incluir em seu cotidiano, por mais simples e óbvio que possa parecer, ainda é algo a ser mais desejado, e rotineiramente introjetado no seio da humanidade. Jesus, por amor, por compaixão, repartiu o pão e aliviou a fome de muitos. Uma ação, aparentemente simples, mas que ainda não a rotinizamos em nossa vida.

Apesar de milhões de famintos no mundo chegarem a morrer de fome, mesmo perplexos e com um sentimento de pena, não de compaixão, assistimos passivamente tal acontecimento. Gasta-se muito mais em armamentos para matar o próximo do que para alimentar os desvalidos. E o mundo, atônito, acaba tomando partido de um dos lados dos conflitos, mas muito pouco, efetivamente, mobiliza-se para reverter, pelo menos parte desses gastos, para alimentar aqueles que mal conseguem levantar-se por causa da fome que lhes consome. Chegamos a ficar aliviados de nossa culpa pela condição de abastados, ao darmos migalhas que nos sobram aos necessitados que chegam próximos de nós, pois o deslocamento maior para irmos até eles não nos é possível pela “falta de tempo e de oportunidade”, belas justificativas para esconder nossa falta de disposição e interesse. Ajudamos, quando muito, a quem está próximo, com o que nos excede, enquanto os que estão distantes, além do nosso campo de visão, sequer chegam a incomodar nossa consciência, é algo que “não nos compete”, está “fora de nossa responsabilidade”.

Qual a obrigação que tinha Jesus com aquela multidão faminta, além de seu amor incomensurável por cada um deles? E nós, quando apregoamos nossa cristandade, como buscamos nos assemelhar a Jesus, em sua trajetória humana por este mundo? Buscar seus ensinamentos e seu exemplo, quando o fazemos, sem que os convertamos em prática de vida, jamais nos fará um cristão, no máximo um simpatizante pelas obras e orientações de Nosso Senhor.

Pois bem, além da compaixão infinita do Cristo Jesus pelos necessitados, mobilizando-o à concretude da ação de alimentá-los, ele o fez por intermédio da ajuda dos seus discípulos. Solicitou a eles que buscassem o que dispunham, mesmo que pouco, ou quase nada diante da multidão, mas servia, sempre serve, sempre é possível dividir, repartir o que se tem, objetivando compartilhar com nossos irmãos, sempre é possível ajudar quem necessita, mesmo que se disponha de pouco.

Por intermédio dos discípulos, Jesus repartiu o pão, deu do pouco que dispunha a quem nada tinha, e assim o fez com tamanho amor que, além de alimentar os famintos, sobrou muito mais do que se tinha antes, para que se pudesse utilizar, posteriormente, com outros necessitados.

Não há limites para a compaixão com o próximo. O amor é a única coisa no mundo que, ao ser aplicado, não diminui, pelo contrário, multiplica-se com o uso. Do pouco que se tem muito se pode dar, e quanto mais se dá, maior é a quantidade disponível para se ofertar.

Vejam que extrapolamos o pão físico. A revelação evangélica ultrapassa os limites da fome física. Levemos o ensinamento com a passagem de hoje para além da concretude do alimento do corpo. Percebam que a multiplicação dos pães nos revela, não apenas o alimento físico que se multiplicou pela compaixão de Cristo pela humanidade, mas também a possibilidade e a importância de multiplicarmos o amor pelos nossos irmãos, por menos que dispomos, por maiores que sejam nossas amarguras, apesar de todas as nossas limitações.

O pão multiplicado, além do alimento do corpo, representa o alimento da alma, sendo distribuído, por solicitação de Cristo Jesus, pelos discípulos, grupo esse que nos inserimos, ao reconhecermos em nós a essência cristã.

Ser cristão, ser discípulo de Jesus, vai muito mais além de práticas formais religiosas. Necessariamente, envolve ações cotidianas, atitudes diárias discipulares, a busca contínua de imitarmos Jesus em sua natureza humana. Ao orientar seus discípulos a darem de alimento para os famintos, de corpo e de alma, mesmo com a ínfima quantidade de pão (pão da vida) disponível, aparentemente incompatível com a necessidade, não se limitava aos discípulos presentes naquele momento, tampouco aos famintos que lá se encontravam, nosso Senhor apontava o caminho para todos os que desejam segui-lo, dispor do que tem, mesmo sendo pouco, e sempre compartilhar com os que necessitam. Certamente, tal atitude terá sua bênção, propiciando que repartir o disponível seja suficiente para todos, havendo, inclusive, após a partilha, a sobra para que mais e mais pessoas possam se beneficiar.

Que nós saibamos repartir o que temos com nossos irmãos, tanto bens materiais, como espirituais. Não por obrigação, ou por expiação relacionada a faltas preteritamente cometidas, ou ainda para conquistar “olhares” melhores do Altíssimo, mas por compaixão, sem qualquer intencionalidade egoística, por puro amor que, em essência, se encontra em todos os seres. Assim, fatalmente, tais bens serão multiplicados.

Cuidado, esse caminhar não aponta para os benefícios materiais que poderemos ter com a repartição dos bens. Não estou me referindo a uma possível prosperidade material em decorrência de compartilharmos o que dispomos. Estou falando da multiplicação do que temos e, com isso, a possibilidade de ajudarmos a muito mais do que poderíamos imaginar. É a multiplicação do alimento, do corpo e da alma, para que possamos, apesar das aparentes limitações, avançar no apoio de um maior número de pessoas, comparado a nossa expectativa inicial.

Incluamo-nos dentre os discípulos de Cristo Jesus e busquemos seguir suas orientações como tal, em especial, no compartilhar com o que temos, mesmo sendo pouco, com aqueles que têm menos do que nós.

Um fraterno abraço e que a paz do Senhor esteja sempre na vida de vocês!

11650636_865689293515412_703155432_n João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF , e aos mais necessitados em diversos trabalhos pastorais. Vive atualmente em Brasília, DF.
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“Sobre esta pedra edificarei minha Igreja” – Frei Milton, OSF

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Amadas irmãs e amados irmãos, que todas e todos vocês estejam em paz!

O texto evangélico desta semana talvez seja um dos pilares do cristianismo, o coração de nossa fé. Não porque, como dizem alguns, foi quando Jesus sustentou a sua Igreja sobre Simão, o Pedro, assertiva questionável, como veremos mais adiante, mas é uma passagem basilar tanto pela forma que o Senhor indica como devemos perceber Cristo como centro de nossa vida, bem como pela visão da composição de sua Igreja por uma humanidade heterogênea, santa e pecadora.

Vejamos primeiramente a passagem em tela:

Chegando Jesus ao território de Cesaréia de Filipe, perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Disseram: “Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”. (Mt 16:13-19)

A primeira resposta dos discípulos, ao serem questionados por Jesus quem o povo dizia ser ele, aponta para João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas. Dos nominados, dois dos maiores profetas destacadamente presentes no Primeiro Testamento – Elias e Jeremias –, e o precursor de Jesus, João Batista, o profeta mais próximo dele, o “maior dentre os nascidos da mulher”, como nos disse o próprio Cristo. Pessoas que, apesar das limitações humanas, traziam imensas virtudes, inabalável fé, exemplos de amor a Deus e ao próximo. Sob o ponto de vista humano, Jesus seria, assim como os citados, um grande profeta, de bondade ímpar, de amor exemplar e privando de um relacionamento íntimo com Deus. Dentro das limitações racionais humanas, Jesus era visto como uma pessoas excepcional, exemplo de vida e a quem deveria ser ouvido e seguido, um grande profeta que trazia à humanidade palavras divinas de salvação.

Porém, Simão nos apresenta, com sua resposta, não a fala decorrente do olhar e da razão humanas, mas sim a verdade que em nós se implanta pela revelação divina. Como seres limitados, podemos identificar em outro homem apenas a sua humanidade, por melhor que seja, mas a divindade existente em Jesus somente pode ser identificada pelo poder do Espírito de Deus que O revela a cada um de nós, assim como o fez a Simão: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus”.

Iniciamos, então, nossa reflexão trazendo à tona de nossa razão a única forma de reconhecermos a presença viva de Deus: pela revelação divina, pelo desejo do próprio Deus de se revelar presente em nós. Não por nossos méritos, até porque não os temos, Deus se faz presente em nossa vida. Méritos, temos sim, quando acolhemos tal revelação, quando permitimos que o Deus vivo e infinitamente amoroso se revela para nós e disponibiliza-se para conduzir nossa vida, caso o aceitemos para fazê-lo. O seu poder infinito ao se fazer presente associa-se ao livre arbítrio que temos de aceitar tal revelação. Assim, bem-aventurados aqueles que, apesar da limitação da carne e do sangue, é capaz de permitir a presença viva do Senhor em sua vida.

Entretanto, a revelação divina não se destina, apenas, ao conhecimento da existência de Deus. Para tanto, bastaria vermos as maravilhas do universo. A verdadeira revelação, a real acolhida de Deus presente em nossa vida reverte-se em mudança, em ação, em construção. Quando Simão reconheceu em Jesus o Deus vivo, não se limitou, apenas, a um conhecimento racional, tal reconhecimento deveria, segundo o próprio Jesus, expandir-se para ação.

Não é sem motivo que tal passagem tenha ocorrido em terras fundadas por um imperador romano em reverência ao imperador Cesar, para eles, um terreno pagão. Em terreno humano, em terreno limitado, com a revelação divina, com a presença viva de Deus, tudo se transforma, tudo se modifica, tudo se santifica.

E foi sobre esta pedra que o próprio Cristo edificou sua Igreja, sobre a pedra da revelação, da fé, da ação do Espírito de Deus na humanidade, independente das limitações, das diferenças, das características individuais. Independente de vaidades e defesas institucionais, a pedra basilar da Igreja de Cristo é a própria presença viva de Deus em nós e não sobre um homem, mesmo sendo ele Simão, chamado Pedro. Percebam que Jesus não disse que sobre Pedro edificaria sua Igreja, mas sim sobre “esta pedra” – Deus todo-poderoso que em nós habita, por meio de sua revelação.

Como somos seres imperfeitos, limitados e plurais, sua Igreja assim também o é, porém santa em sua essência, em sua base, em seus princípios, em seu poder. Não se limita aos que dizem “Jesus, Jesus” numa repetição constante de palavras desvinculadas de ação. A edificação da Igreja de Cristo está ligada a ação daqueles que o aceitam em sua vida, na ligação dos seres ao céu, ou seja, na concretização da revelação divina em nosso cotidiano. Tal postura está na aceitação das diferenças, mas na não concordância com as desigualdades; no acolhimento das dificuldades humanas, mas no repúdio ao desamor e à ganância; na compreensão das limitações dos seres, mas na não aceitação da exploração dos irmãos. Enfim, a Igreja de Cristo edifica-se no Deus vivo e atuante, mesmo que seja por intermédio de cada um de nós, limitados e pecadores.

A pedra da Igreja de Cristo está viva em cada um de nós. Cada pessoa que se propõe a participar dessa edificação transforma-se em pedra de sustentação da grande assembleia cristã, comunidade que vive e nutre-se de amor e compaixão, de fidelidade a Deus e ao irmão, sempre na busca da ligação entre as coisas deste mundo com o divino, transformando-o no próprio Reino de Deus.

Tal situação, além de refletir a responsabilidade da humanidade em ser o seu próprio agente de mudança, traz-nos, também, a confiança que Deus tem em cada um de nós que, apesar de limitados e finitos, somos capazes, se desejarmos, de santificarmos o mundo, desde que acolhamos a sua revelação e a transformemos em ações do cotidiano.

Esta é a nossa missão – fazer deste mundo o Reino de Deus. Para tanto, aceitemos que Deus, por sua revelação, fruto de seu amor infinito por cada um de nós, faça-se presente e atuante em nossa vida.

Um fraterno abraço,

Padre João Milton Menezes

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11650636_865689293515412_703155432_nJoão Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização   em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF e atende os mais necessitados em diversos trabalhos. Vive atualmente em Brasília, DF.
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Por que tanto medo? – Frei Milton, OSF

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Amadas irmãs, amados irmãos, que vocês estejam em paz!

Esta manhã, intriguei-me ao ler o evangelho narrado por Marcos, no qual, sob forte tormenta, Jesus foi questionado por seus apóstolos sobre a sua tranquilidade diante de um eminente naufrágio, Ele responde: “Ainda não tendes fé?”

Permita-me apresentar essa passagem na íntegra e algumas reflexões a respeito.

À tarde daquele dia, disse-lhes: Passemos para o outro lado. Deixando o povo, levaram-no consigo na barca, assim como ele estava. Outras embarcações o escoltavam. Nisto surgiu uma grande tormenta e lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água. Jesus achava-se na popa, dormindo sobre um travesseiro. Eles acordaram-no e disseram-lhe: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. Ele disse-lhes: Como sois medrosos! Ainda não tendes fé? Eles ficaram penetrados de grande temor e cochichavam entre si: Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem? (Mc 4:35-41)

Caríssimas e caríssimos, reflitamos juntos como somos temerosos diante das “tempestades” em nossa vida. Como nos afligimos diante de tormentas que enfrentamos em nosso cotidiano. Como, ao sairmos da calmaria da vida, que humanamente acreditamos ser o ideal para nós, tudo se transforma e desaparece o que normalmente trazemos conosco – a certeza da força divina que em nós habita; a tranquilidade das soluções adequadas que sempre se apresentam; a serenidade diante da necessidade que temos de passar pelo que passamos, com vistas ao nosso desenvolvimento espiritual. Tomados pelo temor, como seres mortais, finitos e limitados que somos, resta-nos, apenas, o instinto de sobrevivência e, com ele, o medo. Medo de fracassarmos, medo de perecermos, medo de sucumbirmos.

E ai vem a pergunta: “Ainda não tendes fé?

Vejamos a passagem bíblica.

A barca onde estavam os apóstolos era, na verdade, o transcurso de sua vida, a passagem pela qual, eles e cada um de nós, nos encontramos, é o transcurso de nossa vida neste mundo. Estamos navegando em alto mar, acompanhados por outras “embarcações”, por outras pessoas.

Percebam que, na mesma embarcação, encontrava-se Jesus, imagem que não representa, somente, a sua presença física, histórica, mas sim, a sua presença salvífica em nossa vida. A presença fortalecedora, iluminada e pacífica do divina em cada um de nós, independentemente da tradição religiosa que seguimos. Não quero entrar aqui na discussão que, atualmente, ferve sobre o pluralismo religioso, ou seja, o teocentrismo (Deus como centro) em substituição do cristocentrismo (Jesus Cristo como centro), possibilitando, com isso, o promissor diálogo entre as religiões, cristãs ou não. O que importa, nesta reflexão, é percebermos o desejo universal salvífico de Deus, é a sua presença em cada uma de todas as suas criaturas, independente do caminho religioso pelo qual elas optem. Ele está em nosso barco, no interior dele, no barco de todos nós.

Só que, normalmente, acreditamos que está “dormindo”, que Ele está “desatento”, até oramos e pedimos seus favores diante de nossos problemas, porque não cremos na sua “atenção”. Pedimos, chamamos a atenção divina, porque, para nós, segundo nossa visão humana, Ele está dormindo, e assim fazemos, mesmo quando acreditamos que Ele está no nosso barco.

E, mais uma vez, percebemos que Ele “se levanta ao nosso auxílio”. Não importa o que ocorra, se nossos desejos foram concretizados no exato momento que acreditamos ser possível e necessário, ou se outros fatos se sucederam e, certamente, adequados às nossas necessidades e aos nossos méritos. Mas sempre Ele se faz presente, sua infinita e sempre presença está em cada um de nós, atentemos nós ou não.

Interessante percebermos na passagem que, mesmo fisicamente presente, fazendo-se presente pelos seus sinais, no caso a cessação da tormenta, aqueles que com Ele estão, aqueles que rogaram por sua interveniência, ainda assim, não O reconheceram, desconhecem que é “Aquele” que tem o poder sobre o céu e a terra.

Oramos a Deus no Pai Nosso pedindo o reino de Deus e entregamos nossa vida a Ele quando dizemos que seja feita a sua vontade, mas, apesar disso, quando as coisas se ajeitam, mesmo quando as tormentas de amenizam, O desconhecemos. E essa é a maior demonstração de quão ínfima é a nossa fé.

Não estamos nos referindo à fé somente postural, teatral ou ritualística, estamos falando da nossa resposta diante da revelação divina a cada um de nós. Fé não é apenas acreditar na existência, fé é ação, é a nossa mobilização diuturna com a certeza da presença da luz divina em nossa vida, mesmo quando aparentemente está “dormindo”, fé é a postura que temos diante dos demais seres.

Vejam, mesmo convivendo com o Mestre, mesmo O ouvindo e vivenciando suas ações, ainda assim eles O desconheciam, eles, assim como nós, ainda tinham medo, ainda tinham apenas um ensaio de fé.

É bastante emblemático e elucidativo para esta reflexão as palavras de Santo Agostinho a respeito da fé: “Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser.

Roguemos ao Altíssimo que percebamos a sua presença em nós, que saibamos utilizar a sua força que está sempre a nossa disposição, que nos diponibilizemos a Ele, verdadeiramente, como se fossemos uma folha em branco para que Ele escreva a nossa história.

Creiamos que a presença do Absoluto é permanente, quer acreditemos ou não, quer peçamos ou não, quer percebamos ou não, independentemente do que somos ou de que linha seguimos. Ele está sempre presente, assim como o sol sempre está, apesar da escuridão da noite.

Um fraterno abraço a todas e todos vocês.
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11650636_865689293515412_703155432_nPe. João Milton, OSF é médico clínico geral , sanitarista, professo perpétuo,  presbítero, atual Secretário Geral da Ordem de São Francisco, mestre em teologia, mestre em educação pela PUC, especialista em terapia comunitária, especialização   em teologia bíblica pela Universidade Mackenzie e  curso de semântica, lexicografia e o simbologismo dos objetos litúrgicos cristãos pelo Centro Universitário Claretiano entre outros cursos. Hoje atua no atendimento público de Brasília DF e atende os mais necessitados em diversos trabalhos. Vive atualmente em Brasília, DF.
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